Superestimulação infantil: até que ponto é saudável acelerar algumas etapas do desenvolvimento natural de uma criança?

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Crédito: Pixabay

O sonho de todos os pais é poder oferecer aos seus filhos a possibilidade de um futuro promissor, muitas vezes, buscando proporcionar condições melhores das que eles mesmos tiveram. Atualmente, o ritmo de aprendizado para as crianças de todas as idades evoluiu consideravelmente. Existem diversos canais, antes usados apenas para o entretenimento dos pequenos, que passaram a contribuir também para o desenvolvimento e aprendizado das crianças como, por exemplo, os brinquedos, desenhos animados e a tecnologia.

Neste ritmo acelerado de desenvolvimento, os pais normalmente buscam também contribuir para o melhor aprendizado da criança, incentivando e o matriculando em uma série de atividades extracurriculares. Mas, é importante levar em consideração um fator de suma importância: as crianças têm o tempo certo de desenvolvimento. No meio dessas atividades, às vezes é necessário parar e observar se o seu filho está reagindo bem a todos os inúmeros estímulos aos quais tem sido exposto.

Estímulo também tem medida certa

Inglês, futebol, balé, natação, francês, enfim. Sabemos que a função dos pais é também acompanhar de perto o desenvolvimento de seus tesouros, buscando alternativas para auxiliar nas dificuldades emocionais e também educacionais da criança.  A solução muitas vezes encontrada por eles são atividades extras, como as descritas no começo do parágrafo. Com certeza, estas formas de aprender que proporcionam mais conhecimento na rotina da criança, são benéficas e acrescentam muito ao seu aprendizado, desenvolvendo aptidões que, na maioria das vezes, não são trabalhadas profundamente na escola.

Mas até mesmo o estímulo ao desenvolvimento precisa ser ponderado, pois atividades educativas vêm acompanhadas de responsabilidades, e o excesso de carga sob as crianças, em alguns momentos, pode acabar prejudicando o desenvolvimento natural de algumas fases da infância, como a psicopedagoga do Integração Núcleo de Atendimento Clínico e Pedagógico, Sorahya Bellard, descreve: “As atividades extras são importantes para o desenvolvimento infantil, mas há que se ter muito cuidado sobre como elas irão preencher o dia-a-dia das crianças. Muitas vezes o que acontece é que são tantas atividades extras que a família deseja que a criança realize, que o tempo de lazer e o tempo ‘para serem crianças’ ficam totalmente comprometidos e, então, o que poderia ser algo favorável ao desenvolvimento infantil se torna estressante e desestimulante”.

Alguns outros pontos precisam ser avaliados para escolher e ponderar as atividades nas quais a criança poderá melhor se desenvolver. Às vezes esquecemos o quanto é necessário para os pais levarem em consideração aspectos, como: a faixa etária, os horários de rotina semanal, para que não fiquem sobrecarregados e, principalmente, o desejo da criança em realizar as aulas que os pais pensam ser importantes para ela. Pois sem a vontade de participar de determinadas atividades, ela poderá se sentir desconfortável em fazer parte de um novo grupo de aprendizado, o que com o tempo, poderá trazer problemas emocionais ou mesmo reflexo no boletim escolar.

As consequências em situações como essas podem acarretar inclusive em um quadro de estresse infantil, como a Dra. Sorahya Bellard completa: “a criança fica tão sobrecarregada de atividades extras que acaba se mostrando irritada, desestimulada, cansada em excesso, fazendo com que tenha dificuldades para se concentrar, se socializar, focar nos estudos, dentre outros. O cérebro está tão cheio de informações que não é raro acontecerem os “brancos”, que nada mais são do que o esquecimento de coisas importantes em função de uma sobrecarga na memória de trabalho”.

Encontrando o meio-termo para seu filho

Antes de propor uma atividade para seus filhos, é importante que os pais também meditem sobre os limites dos seus próprios anseios. É comum encontrar em salas de ballet, garotinhas com o rosto emburrado, pois, estão ali somente para realizar o sonho de suas mães, mesmo não apresentando, em nenhum momento, interesse ou habilidade para a dança. O mesmo acontece também com os pais ao estimularem os filhos a torcer por determinado time, ou praticar um esporte.

É preciso encontrar junto às crianças um meio termo entre o desejo dos pais para o futuro dos pequenos e a vontade dos filhos. Isso porque quando a criança insiste em participar de uma atividade que não gosta para ver os pais contentes, ela pode estar abrindo mão de uma parte de seus sonhos e expectativas pessoais, ainda em desenvolvimento, para satisfazer a vontade dos pais.

No meio deste processo, principalmente quando ela não consegue atingir as metas que a atividade propõe, a frustração acontece, gerando sinais perceptíveis no comportamento da criança. A psicóloga Kátia Mendes, especialista em psicanálise com crianças e adolescentes pela Sociedade Brasileira de Estudo e Pesquisa da Infância (SOBEPI), fala sobre como identificar estes aspectos comportamentais e qual a postura que os pais precisam adotar diante disso: “a curiosidade, o interesse e vitalidade precisam fazer parte do cotidiano de uma criança. A perda de interesse pode estar relacionada a uma dificuldade emocional, social ou até familiar. É preciso estar atento aos sinais, que podem ser também pedidos de ajuda. A atitude a ser tomada vai depender da compreensão do que realmente está acontecendo com a criança. Se esse comportamento persistir é indicado que um profissional especializado, neste caso um psicólogo infantil, seja consultado”.

Entretanto, o mais importante diante destas situações, é buscar um caminho para a aproximação no relacionamento entre pais e filhos, que pode acontecer com atividades compartilhadas com a família, através de jogos e brincadeiras. Os filhos, na grande maioria do tempo, têm muito interesse em aprender coisas novas com seus pais, principalmente, nos primeiros anos de aprendizado, quando eles ainda são o principal modelo de comportamento e estrutura para os pequenos.

Aproveite esta fase para passar mais tempo com as crianças e compartilhe suas experiências e conhecimentos com eles. Lembre-se, que desta maneira, você também estará aprendendo mais sobre a personalidade de seu filho, e desta forma encontrará as melhores soluções para acrescentar em sua educação e ao seu desenvolvimento emocional.

Agenda lotada não significa felicidade. Busque lembrar-se de como é importante ter um tempo para ser criança e aproveite esta fase junto com seu filho, pois, num piscar de olhos eles já serão adultos e a única coisa que restará desta época são as boas lembranças de uma infância completa e, principalmente, feliz.

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